Eu vi os horrores
Livros sobre o holocausto e o sofrimento impingido aos judeus no período da Segunda Guerra Mundial estão na moda – ou estavam, sou meio atrasado nessas coisas. No último ano, li O Menino do Pijama Listrado e A Menina que Roubava Livros. Ambos muito bons. Mas hoje terminei de ler um relato quase tão forte quanto os dois citados anteriormente: Maus, de Art Spiegelman (296 páginas, Cia. das Letras). Ganhador do Pulitzer, a obra conta a história do pai de Art, Vladek, judeu polonês sobrevivente de Auschwitz. Construído um pouco com meta-linguagem, o livro retrata as conversas entre pai e filho e ao mesmo tempo, exibe a história contada por Vladek.
Essa imbricação só é possível por que a obra não tem apenas o texto – excelente, diga-se de passagem – como suporte. É um livro em quadrinhos, e as imagens contam muito, permitindo que numa mesma cena apareça Vladek falando com o filho e sendo espancado por um soldado alemão. Em preto e branco, as imagens do quadrinho retratam judeus como ratos, alemães como gatos, poloneses como porcos, franceses como sapos e americanos como cães. Uma bela visita à tradição das fábulas, em que os animais têm comportamento humano. A diferença é que em Maus, os humanos têm comportamento animal.
Fiquei ainda mais arrepiado quando, já no final do livro, falam em Bergen-Belsen, um campo de concentração que fica a uma hora de carro de Hannover, na Alemanha. Visitei o campo em novembro de 2005. Foi uma experiência aterradora. Não vou postar fotos, mas meu semblante é carregado em todos os retratos. E em Bergen-Belsen, não havia câmaras de gás. Era um campo transitório. Os assassinatos em massa ocorriam no Leste Europeu, não na Alemanha. Ainda assim, no final da guerra, moreu muita gente neste campo, de fome e doenças. As sepulturas são gigantes. 2000 mil pessoas em cada uma. A menor tem 500.
Lendo Maus – e ler quadrinhos é diferente, porque há o suporte da imagem – fiquei mais sensibilizado para os horrores do holocausto do que com A Menina que Roubava Livros, cujo texto é infinitamente melhor. O fato de citar um lugar em que estive, de fazer essa conexão, me deixou ainda mais suscetível ao livro. Bem que meu velho, que leu a história antes de mim, avisou que era triste pra caramba. Triste, mas vale a pena ler.
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